sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Síria, um país com armas químicas e sem química

 

O governo Assad hoje é uma milícia com armas químicas
Bashar Assad está encurralado, não derrotado. O regime cede terreno a rebeldes, mas ainda é a mais potente força militar na Síria. Para tal, contribui a fragmentação militar e política do outro lado, além da falta de estômago internacional para uma intervenção direta no conflito.
De qualquer forma, o estado-nação governado por Assad encolhe dia a dia. Na expressão da empresa de análises estratégicas Stratfor, Assad hoje basicamente é chefe de uma milícia (embora já seja um criminoso no status de chefe de Estado).
Momento da pergunta sombria: será que este criminoso, ao estilo de um Saddam Hussein nos anos 80, usará armas químicas contra os rebeldes? Contra sua própria população? A pergunta é feita no contexto dos alertas ocidentais desta semana, a destacar pelo governo norte-americano, de que tal opção seria “inaceitável”, seria um convite para a intervenção.
Claro que aqui surge uma outra questão: e massacrar a população de forma convencional é aceitável? Obviamente que não, mas uma “mera carnificina” permite ficar ao largo em nome de obstáculos estratégicos, medo do imponderável, dificuldades para escolher o lado certo no conflito, etc. Já o uso de armas químicas significa cruzar uma linha vermelha psicológica, forçando uma intervenção internacional.
Os principais siriólogos americanos divergem sobre o que fará Assad. Joshua Landis, da Universidade de Oklahoma, acredita que não faz sentido para o regime recorrer às armas químicas. Seria o suicídio político, não apenas de Assad, mas do seu círculo de poder alauíta.
O mais lógico para o regime é cair fora de Damasco e se entrincheirar no enclave alauíta da costa, tornando-se para todos os efeitos mais uma milícia na guerra civil. O regime, aliás, faz o que pode para “balcanizar” o conflito, apostando em uma oposição pulverizada, ao invés de um estado restaurado sob domínio sunita, especialmente da Irmandade Muçulmana. Um exemplo mais recente desta “balcanização” são as escaramuças entre rebeldes e milícias curdas, no norte do país.
O dilema aqui para o Ocidente é que quanto mais persistir o conflito, mas espaço haverá para forças radicais, como jihadistas, atuarem na Síria, assim como atores árabes, como Arábia Saudita e Catar. Mesmo sem o uso de armas químicas, crescerá a tentação para uma intervenção, ou no mínimo de mais apoio militar a setores mais moderados. E este é o plano de americanos e europeus.
Curiosamente, não interessa um desfecho militar imediato na Síria para os paises ocidentais, na medida em que não existe um amadurecimento de uma oposição política capaz de organizar algum tipo de transição. Isto ajuda a explicar a pressa para o reconhecimento da Coalizão Nacional Síria, mais coesa no papel do que na prática. Por ora, ela não é uma alternativa viável, mas deve ser paparicada. Estes lances são sincronizados com esforços para isolar os rebeldes mais radicais.
Diante deste cenário tão complexo, outro siriólogo, Andrew Tabler, do Washington Institute for Near East Policy, estima que a guerra civil deve continuar por um tempo e que ela está entrando em uma fase ainda mais sangrenta e perigosa. Ao contrário de Landis, Tabler acredita que armas químicas possam ser parte do conflito. Trata-se de uma questão de sobrevivência desta milícia de Assad. Rebeldes estão conseguindo conter bombardeios aéreos e fogo de artilharia com seu crescente armamento antiaéreo. O arsenal químico é o último recurso desta milícia encurralada. E outro siriólogo muito respeitado, o francês Peter Harling, do International Crisis Group, adverte que mesmo sem armas químicas, coisas terriveis devem acontecer, especialmente se as forças de Assad se entrincheirarem na capital. Para Harling, o confito poderá levar à “completa destruição de Damasco”.
Eu acredito que Bashar Assad terá um final atroz (não um exílio em Caracas ou Teerã), ao estilo de Saddam Hussein e Muamar Kadafi. Mas antes disso, serão dias atrozes para os sírios em geral e talvez depois.

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