sexta-feira, 26 de abril de 2013

Agiotas mantinham ligações com policiais e políticos

 

Investigações apontam desvio de R$ 100 mi de prefeituras maranhenses.
Esquema de grupo de agiotas envolvia 41 gestores municipais.

Escutas telefônicas feitas com autorização da Justiça comprovam que o grupo de agiotas que mantinha ligações com pelo menos 41 prefeituras maranhenses, também possuía laços ‘com o poder”. A descoberta aconteceu como desdobramento das investigações que apuram a morte do jornalista Décio Sá, executado a tiros há um ano, em um bar da Avenida Litorânea, em São Luís.
As fraudes, segundo a Polícia e o Ministério Público, envolveram prefeituras municipais no período de 2009 a 2012. Para financiar suas campanhas, os gestores contraíam empréstimos com a quadrilha, que pegava dinheiro público como pagamento. O bando era comandado pelo empresário Gláucio Alencar e o pai dele, José Alencar de Miranda e teria desviado mais de R$ 100 milhões das prefeituras maranhenses, de acordo com as investigações.
Em uma das ligações aparecem o advogado Ronaldo Henrique Santos Ribeiro, e uma pessoa identificada apenas como Rodrigo.
- e aí, ladrão?
- tu é empresário de quê? Tu é empresário de quê?
- mas rapaz...
- tu é ladrão de dinheiro público, rapá (risos)

Depois um vereador da região metropolitana de São Luís entra na conversa....
- cadê Franklin Neto?
- tá aqui esse ladrão. Peraí.
Fn: “esperando tu me ligar, até agora”.
- ainda nem almocei. Você tá onde, sô!
Fn: “nós estamos aqui, conspiraaaaaannnnndo.”

Flanklin Neto, que aparece na gravação é vereador da cidade de Raposa. Ele seria uma pessoa de confiança dos agiotas para intermediar negócios com prefeituras da região metropolitana de São Luís, conforme aponta esse relatório de investigação – a que a TV Mirante teve acesso. Procurado pela reportagem, Flanklin Neto, negou envolvimento com o grupo.
Em um processo de 2009, o avô de Flanklin Neto, o advogado maranhense José Flanklin Skeff Seba aparece como defensor em Xinguara, no Pará, do pistoleiro Jhonatan de Sousa Silva, em um caso de homicídio. Johnatan, mais tarde, confessou ter sido contratado pelos agiotas para matar duas pessoas: Décio Sá e o empresário Fábio Brasil, este último em Teresina.
Para a polícia, além de ligações telefônicas, esse seria mais um indício do elo entre o vereador Flanklin Neto e a quadrilha de agiotas.
Por telefone, o avô de Flanklin Neto, que mora em Santa Inês, negou qualquer ligação com agiotagem, mas admitiu que também defendeu o pistoleiro num duplo homicídio ocorrido em outubro de 2010. “Envolveram nosso nome porque na verdade nós fomos advogado dele aqui em Santa Inês, mas não interferiu em nada. Não houve qualquer decisão aqui favorável a ele, né?”, argumentou Seba
No primeiro depoimento que prestou à polícia, Jhonatan de Sousa Silva envolveu ainda o nome de uma outra autoridade, que estaria por trás dos crimes encomendados pela quadrilha de agiotas, o deputado estadual Raimundo Cutrim, ex-secretário de Segurança Pública do Maranhão.
O nome dele também aparece em conversas entre integrantes do grupo de agiotas. Numa das conversas, um membro da organização criminosa, Fábio Aurélio do Lago e Silva, o Buchecha, conversa com uma pessoa não identificada. Ele diz que um outro integrante do grupo, Junior Bolinha, teria se livrado de uma armadilha, feita por Gláucio Alencar, por causa de uma intervenção do deputado.
A conversa se refere a um encontro que houve no escritor de um advogado acusado de fazer parte da quadrilha. De acordo com a polícia, houve uma discussão entre Gláucio Alencar e Junior Bolinha, apontados como mandante e contratante do pistoleiro para matar Fábio Brasil e Décio Sá.
Bolinha teria ido pedir mais dinheiro para Gláucio, que contratou os serviços. Por sua vez, Glaucio se recusou e chamou dois policiais que davam proteção à quadrilha para expulsar junior bolinha do escritório. Bolinha então teria ligado para o deputado para amenizar a situação.
O escritório pertence a Ronaldo Henrique Santos Ribeiro, advogado de Gláucio e também indiciado pela morte de Décio Sá.
Policiais
Os policiais civis Alcides Nunes da Silva e Joel Durans Medeiros trabalhavam na Superintendência de Investigações Criminais (Seic), o departamento da polícia que justamente investiga os agiotas.

Eles também são acusados de fazer parte da organização criminosa e foram indiciados por participação na morte de Décio Sá. Os dois foram afastados do serviço.
O deputado Raimundo Cutrim diz que nunca se envolveu com agiotas. E que conhece pouco sobre os integrantes do grupo.
A polícia diz não conseguiu avançar nas investigações sobre o suposto envolvimento do deputado no esquema de agiotagem porque para investigar o parlamentar depende uma autorização, que nunca saiu do Tribunal de Justiça do Maranhão (TJ-MA).
Em nota, a corregedoria do TJ informou que o pedido foi feito à presidência do Tribunal no dia 29 de agosto de 2012, pela juíza Ariane Mendes. Caberia à presidência tomar as medidas para que a investigação prosseguisse. A presidência do Tribunal de Justiça foi procurada por duas semanas pela nossa equipe, mas não se manifestou sobre o assunto.
As investigações apontaram também para o envolvimento no esquema de agiotagem e assassinatos de um capitão da polícia militar: Fábio Aurélio Saraiva Silva, o Fábio Capita. Ele está preso acusado de envolvimento nas duas mortes que teriam sido arquitetadas pelos agiotas. Ele estaria envolvido na morte de Fábio Brasil e teria fornecido a arma para o pistoleiro matar o jornalista Décio Sá, conforme o matador disse em depoimento.
A perícia não conseguiu identificar a numeração da arma – que foi raspada, mas apurou que a munição usada no crime era da Secretaria de Segurança Pública do Maranhão (SSP-MA)– e foram destinadas às polícias Militar e Civil.
O depoimento de um outro membro da quadrilha, Fábio Aurélio do Lago e Silva – o Buchecha, também foi fundamental para ligar Capita ao grupo de agiotas.
Neste mês, depois ter o habeas corpus negado por seis vezes, Fábio Capita conseguiu o direito de responder em liberdade pelo assassinato de Décio Sá, mas vai ser transferido para o Piauí, onde vai permanecer detido por causa do assassinato de Fábio Brasil.
A Polícia Civil do Maranhão também acionou a Polícia Federal para ajudar na investigação da agiotagem porque haveria indícios do envolvimento de um delegado federal no esquema. Pedro Meireles é quem investigava irregularidades de prefeituras maranhenses. A polícia suspeita que ele montava operações para pressionar prefeitos que não pagavam os agiotas.
Numa entrevista à Rádio Mirante AM, em agosto do ano passado, o ex-prefeito de Serrano do Maranhão, Vagno Pereira, conhecido como Banga, disse que foi ameaçado pela quadrilha de agiotas porque não quis pagar uma dívida de R$ 200 mil. Na época, ele alegou que foi preso em 2010 numa operação da Polícia Federal “armada” pelo delegado Meirelles, por causa da dívida com a quadrilha.
Pedro Meirelles também foi citado na polícia em outros depoimentos de testemunhas. O delegado da polícia federal aparece ainda em grampos telefônicos que monitoravam a quadrilha.
O advogado de Gláucio também ligou para a então namorada do delegado Pedro Meirelles, chamada Andreia.
Ronaldo: - Andrea;
Andrea: - oi Ronaldo.
Ronaldo: - pois é. Tá todo mundo surpreso com isso, viu.
Andrea: - eu imagino. Eu também fiquei muito surpresa. Eu não imaginava não, viu.
Ronaldo: não. Tu é doido, pô. Ele (gláucio) tá desesperado, dizendo “ronaldo, eu tô pagando uma coisa... Tão me chamando de assassino, cara. Eu não fiz isso.”
Andrea: -Ronaldo, me desculpe, mas eu acredito que tenha feito. A minha surpresa é que eu não imaginava que ele fosse capaz de fazer isso, mas me desculpe, você, pedro... Ninguém me engana que vocês todos estão enrolados.

Andreia não foi encontrada para comentar a ligação. O delegado Pedro Meirelles não quis gravar entrevista.
Em nota, a Polícia Federal diz que está apurando as denúncias contra o delegado, mas que só vai se manifestar sobre o assunto quando as investigações estiverem concluídas.
O advogado de Gláucio, Ronaldo Henrique, indiciado e citado várias vezes nos diálogos, não quis gravar entrevista.
Os policiais civis indiciados e afastados da função, Alcides Nunes da Silva e Joel Durans Medeiros não foram encontrados pela reportagem.
O inquérito da Polícia Civil sobre agiotagem no Maranhão ainda não foi concluído. A polícia ainda investiga outros grupos de agiotas; a participação de deputados e até de juízes no esquema.

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