segunda-feira, 20 de maio de 2013

Vilão Jeremias cativa mais do que herói de 'Faroeste caboclo'


Rival do protagonista se destaca em filme baseado na música da Legião.
Longa com Isis Valverde é leal a passagens da letra de Renato Russo.


Atores Isis Valverde e Fabrício Boliveira em cena do filme 'Faroeste caboclo' (Foto: Divulgação) 
Os atores Isis Valverde e Fabrício Boliveira em cena do filme 'Faroeste caboclo' (Foto: Divulgação)
No filme “Faroeste caboclo”, Jeremias não desvirgina mocinhas inocentes nem diz que é crente mas não sabe rezar, como na descrição da música que serve de inspiração à obra. A versão cinematográfica, no entanto, traz delito ainda mais nocivo cometido pelo vilão: ele é mais cativante que João de Santo Cristo, protagonista e condutor da narrativa.
Em tese, não seria problema. Mas é, porque exemplifica descuidos na construção do herói que viaja da Bahia a Brasília para melhorar de vida. Se Jeremias – que prossegue “traficante de renome”, “maconheiro sem-vergonha” e promotor da “rokconha” – tem direito de figurar em passagens de humor, drama ou mesmo caricatura, a João resta um comportamento previsível.
Não se pode negar, contudo, que há fidelidade ao material de origem: o herói é tão trágico quanto na canção. No todo, o filme de René Sampaio é leal à quilométrica letra da Legião Urbana e à reconstrução de época – as coisas se passam nos anos 1980 (veja ao lado trailer de "Faroeste Caboclo").
Por outro lado, já na primeira cena, o longa desobedece (beneficamente) os versos de Renato Russo, ao inverter a ordem dos fatos. A intenção talvez seja provocar alguma surpresa numa audiência que provavelmente já conhece o conteúdo. Ou talvez seja justificar o “Faroeste” que está no título. O que se vê na tela é uma tomada em close nos olhos de João (Fabrício Boliveira, da série “Suburbia”), artifício habitual em produções que retratam o velho oeste. Funciona como aviso um dos realizadores: isto é um filme com referências próprias, não um clipe.
Uma das liberdades mais evidentes tomadas é a introdução precoce de Maria Lúcia (Isis Valverde) e do citado Jeremias (Felip Abib). É medida providencial, uma vez que fica logo estabelecido o romance e o drama essenciais do filme. Na música, eles apareciam mais tarde. Os outros acertos são, aparentemente, acessórios – e fundamentais. É a criação de personagens e situações que não existiam na música. Caso do policial a cargo do ator Antonio Calloni, bem no papel. E de passagens “inéditas” e amenas nas quais João é menos tenso, ansioso. Nesses momentos, ele supera a obviedade.
O ator Felipe Abib vive o personagem Jeremias no filme 'Faroeste caboclo' (Foto: Divulgação) 
Felipe Abib vive o personagem Jeremias
(Foto: Divulgação)
“Faroeste caboclo” começa confuso, com ações aparentemente inexplicáveis de João. Nada com que se preocupar. Conforme a história anda, elas vão sendo justificadas em flashbacks. O roteiro privilegia a relação amorosa entre João e Maria Lúcia. Ele sofre por ser pobre, negro e discriminado – recorre ao crime e à violência para ascender. Ela sofre por algum motivo qualquer não revelado, é rica (filha de senador, personagem de Marcos Paulo), branca e recorre à maconha com razoável frequência.
Embora o roteiro não esclareça de onde vem o sofrimento da jovem, Isis Valverde é suficientemente carismática para lidar bem com a limitação. As circunstâncias em que se dá seu envolvimento com o João são improváveis, mas o público acredita na relação entre os personagens. As cenas de sexo entre ambos – novamente com bastante close e o contraste de cor de pele sublinhado – se prestam a isso.
Avaliado o conjunto, resta de “Faroeste caboclo” o zelo com a música de Renato Russo: quem assistir ao filme com a letra em mãos não vai ter tantas anotações a fazer. E ainda o vilão Jeremias. Ele não chega a fazer o que o Coringa de Heath Ledger fez com o Batman de Christian Bale em “Cavaleiro das trevas” (2008). Mas melhora tudo sempre que aparece, a ponto de se torcer por seu regresso – outra prova do efeito positivo de se infringir a música. Na canção da Legião, Jeremias aparece apenas na segunda metade dos versos. O vilão só não merecia a afetação das cenas que precedem o duelo.

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