sábado, 23 de agosto de 2014

Não sobrará ninguém

Se cada profissional de empresa privada que escrever mal e criticar a economia for demitido, teremos um problema de desemprego

RESOLVIDO Dilma e Botín, presidente do Santander. Ela reclamou de uma crítica, ele disse que o responsável foi demitido (Foto: Ueslei Marcelino/Reuters e Juan Manuel Serrano Arce/Getty Images)
Reportagem publicada na edição impressa de ÉPOCA no dia 4 de agosto
"Duvidamos que Dilma fará as mudanças necessárias.” “Dilma só recuperará a confiança do investidor se trocar a equipe econômica.” “Investidor estrangeiro, não compre nada no Brasil, porque Dilma tem grande chance de ganhar a eleição.” Essas críticas à gestão da presidente Dilma Rousseff, duríssimas, foram divulgadas em relatórios de bancos para seus clientes, escritos nos últimos meses, por um motivo bem simples: o cenário econômico piorou, as perspectivas são ruins, e ela se recusa a admitir a necessidade de correções de rumo. O conteúdo dos relatórios é esse, mas a linguagem é outra, mais técnica e empolada. Isso torna a leitura, normalmente, uma chatice. A maior parte desses relatórios está condenada a ir rapidamente para o lixo eletrônico. Na semana passada, um deles fugiu a sua sina e tornou-se peça de discussão eleitoral. Seríamos mais felizes se o texto tivesse, ao menos, melhorado o nível do debate. Não foi o caso.
Liberdade para criticar e para rebater (Foto: Reprodução)
O relatório do banco Santander afirmava que, caso Dilma tornasse a subir nas pesquisas eleitorais, “o câmbio voltaria a se desvalorizar, juros longos retomariam alta, e o índice da Bovespa cairia”. O texto, confuso e truncado, atribui a ela uma “quebra de confiança”, sem deixar claro quem deixou de confiar no governo ou no país. A análise se dirigia apenas aos clientes com renda mensal superior a R$ 10 mil. A partir do conteúdo, do remetente (uma instituição financeira) e do destinatário (os brasileiros mais ricos), o governo viu uma oportunidade para retomar a retórica do confronto. Dilma disse que tomaria uma “atitude bastante clara” perante o banco e fez o mercado financeiro temer represálias. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, normalmente cheio de jogo de cintura para lidar com essas situações, cometeu a injustiça de pedir publicamente a demissão de quem fora responsável pelo relatório. O presidente mundial do banco, Emilio Botín, apressou-se em confirmar a demissão. O Santander teria o direito de mandar embora um funcionário por ele escrever relatórios ruins ou por enviá-los sem as aprovações internas necessárias. Ao longo da semana passada, havia rumores de que mais demissões ocorreriam por causa do incidente. Mas é péssimo que fique no ar a sensação de que esses assalariados perderam o emprego pela submissão de uma empresa privada à retórica exaltada de políticos que se sentiram ofendidos. Pior ainda. Pela visão de mundo – ou pela estratégia eleitoral – que orientou as reações no PT, de um lado está Dilma, personificando um governo popular, empenhado em provocar transformações sociais. De outro, o mercado financeiro e os mais abastados, contra a mudança. É uma interpretação simplória e oportunista dos fatos.
O executivo pode responder às críticas com dados. Cabe ao TSE coibir violações da lei eleitoral
Instituições como bancos, corretoras e consultorias financeiras têm o dever de ajudar seus clientes a tomar decisões diante dos cenários políticos e econômicos. Principalmente, quando esses cenários – como a eleição de um ou outro candidato – podem influenciar profundamente os efeitos de gastos, dívidas e investimentos. Os relatórios não são cabos eleitorais, mas devem usar opinião a respeito do cenário político, a fim de orientar o cliente. “O analista deve emitir opiniões também com base no que acredita, não apenas com base no que vê”, diz o consultor de reputação e imagem Rodolfo Zabisky, integrante do Movimento Brasil Mais Competitivo e ex-executivo financeiro. Ele diz que o relatório do Santander difere da maioria dos documentos do gênero apenas na forma. Não traz nenhuma novidade. Seu autor não foi o primeiro a apontar a fragilidade da economia brasileira ou a empolgação do mercado financeiro diante da piora das chances de reeleição de Dilma. 

Críticas ao governo atual foram feitas por instituições brasileiras, como o Itaú Unibanco e a consultoria Empiricus, ou estrangeiras, como a consultoria Eurasia e os bancos Morgan Stanley, Goldman Sachs e Nomura. Elas também ocorrem com outros governos.  Desde o início da crise global, em 2008, agências de classificação de risco foram verdadeiros carrascos dos governos dos países europeus com contas ruins. Empresas como Moody’s e Standard&Poor’s  rebaixaram as notas dos governos de Grécia, Espanha e França como pagadores de dívidas. Isso enquanto seus governos almejavam à reeleição e tentavam conter o avanço do voto punitivo. “Só o Brasil ainda não está habituado a esse tipo de avaliação, com comentário político, de bancos e entidades financeiras. É normal um banco dar sua opinião”, diz Lucia Hippolito, da Saber Consultoria.
 
Problemas na economia  (Foto: Reprodução)
Num país com liberdade de opinião, é bom que os bancos possam criticar e que a equipe econômica do governo possa contra-argumentar. A gestão atual tem poucos dados para fazer isso, mas poderia, por exemplo, lembrar ocasiões anteriores em que as projeções de bancos deram errado. Ou exibir o baixo nível de desemprego, ou mostrar o robusto fluxo de investimento externo para o Brasil, superior a US$ 60 bilhões nos últimos 12 meses, superior aos níveis registrados até 2010. Não se espera que um governo silencie diante de críticas. Na mesma semana em que Dilma reagiu contra o Santander, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, discordou de um relatório negativo a respeito do Brasil publicado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Mantega, nem sempre um exemplo de moderação nas reações, respondeu de forma elegante que sua análise da conjuntura diverge daquela feita pelo FMI.
Mesmo em casos de suspeita de partidarismo ou propaganda eleitoral indevida, não cabe ao Executivo fazer justiça com o próprio gogó. Manifestações que contrariem a Lei Eleitoral devem ser coibidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Foi o que ocorreu com a consultoria Empiricus no final de julho. Ela comprara links de internet patrocinados pelo Google e disseminou pela rede “dicas” de como proteger o patrimônio caso Dilma fosse reeleita. O governo entrou com uma representação no TSE, e os anúncios foram retirados do ar, porque a Lei Eleitoral proíbe a veiculação de qualquer tipo de propaganda eleitoral paga na internet. Tudo dentro das regras do jogo. Pode-se debater a lei, mas não ignorar uma decisão do TSE.

A despeito da indignação, real ou encenada, torna-se cada vez mais difícil para o governo descartar as críticas como se fossem implicância, reacionarismo ou manifestação ideológica. A última demonstração do mercado financeiro de que considera Dilma pouco amigável aos investimentos ocorreu em meados de julho, quando foi divulgada uma pesquisa do instituto Datafolha. A pesquisa apontava queda nas intenções de voto em Dilma no primeiro turno e empate técnico com o candidato do PSDB, Aécio Neves, no segundo turno. Apontava também uma alta rejeição a Dilma: 36% dos eleitores, naquele momento, afirmavam que não votariam nela em hipótese alguma. Como resultado, o Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, subiu 2,5% em um dia.

Esse tipo de reação ocorre porque a maior parte dos indicadores econômicos, sob a gestão Dilma, vem piorando. No semestre, o governo teve o pior saldo de suas contas dos últimos 14 anos. Em meio ano, poupou R$ 29,4 bilhões, menos de um terço dos R$ 99 bilhões que afirmou que pouparia em 2014 para pagar juros de dívidas. A inflação oficial se mantém firme no topo da meta tolerável, de 6,5% ao ano. Ela estaria ainda mais alta, se o governo não contivesse artificialmente preços como a energia. E, na tentativa de conter preços e aquecer setores escolhidos a dedo, como petróleo ou aviação regional, a gestão Dilma piora o desempenho de empresas estatais e torra dinheiro do contribuinte. Dilma e sua equipe fariam bem em lidar melhor com as críticas, prestar mais atenção aos problemas reais e se concentrar na busca de soluções.

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