sábado, 23 de agosto de 2014

Para tucanos, dificuldade de Aécio lembra a de Serra em 2002

Fora da zona de conforto da antiga polarização PT-PSDB, candidato tucano terá de criticar Dilma sem se descuidar de Marina Silva; em 2002, Serra teve a sombra de Ciro e Garotinho contra Lula

UMA RELAÇÃO TÃO DELICADA Aécio Neves e José Serra na campanha presidencial de 2010. “Viramos Minas, viramos Minas”, disse  Serra depois de  um comício em Belo Horizonte.  Era ilusão (Foto: Andre Dusek/Estadão Conteúdo)
pesquisa do Instituto Datafolha divulgada nesta segunda-feira (18), a primeira com Marina Silva no lugar deEduardo Campos, confirma o cenário que no último final de semana alguns líderes tucanos já desenhavam para o candidato Aécio Neves (PSDB):  fora da zona de conforto da antiga polarização PT-PSDB, ele terá a partir de agora um desafio semelhante ao enfrentado por José Serra na eleição de 2002, muito mais até do que na disputa de 2010, quando o próprio Serra enfrentou Dilma Rousseff e Marina, novamente candidatas neste ano.

Conforme os dados deste mais recente levantamento, Dilma Rousseff (PT) tem 36% das intenções, seguida por Marina Silva(PSB) e Aécio em empate técnico, com 21% e 20%, respectivamente. Reservadamente, os tucanos dizem que, do jeito que estava o quadro pré-Marina, Aécio só ia se preocupar com a candidatura Campos se, em algum momento, Campos representasse uma ameaça, o que os tucanos imaginavam que pudesse ocorrer no final de setembro. Portanto, com pouco tempo hábil para alternar significativamente o resultado final do primeiro turno.
>> Datafolha: Dilma tem 36%; Aécio 20% e Marina Silva 21%

Naquela disputa de 2002, Serra, então candidato do PSDB, passou o primeiro turno empenhado em fustigar Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o líder nas pesquisas, mas sem deixar de se preocupar um só minuto primeiro com Ciro Gomes (então no PPS) e, depois, com Anthony Garotinho (então no PSB). É claro que havia uma enorme diferença em relação à posição ocupada por Serra, candidato governista, e a ocupada por Aécio, nome da oposição à presidente Dilma Rousseff.  Há 14 anos, era Serra quem tinha de frear a vontade do eleitor por mudanças; agora, esse é o papel de Dilma. O exemplo, no entanto, é evocado por líderes tucanos para tentar ilustrar a dinâmica que a campanha deverá tomar nos próximos dias. Em meados de agosto de 2002, segundo o Ibope, Lula tinha 35%, Ciro, 21%, Serra, 17%, e Garotinho, 11%.  Em setembro, Ciro foi ultrapassado por Serra e também por Garotinho, que permaneceu colado no tucano até o reta finalíssima do primeiro turno. Quando os votos foram computados, Lula teve 46%, Serra, 23%, e Garotinho, 18%. Em 2010, Serra e Marina tiveram de unir votos para levar a eleição para o segundo turno, cenário hoje descartado pelo Datafolha.

“Nosso candidato terá de continuar mirando a Dilma sem deixar de apontar as contradições da Marina, é um momento delicado”, afirma um líder do PSDB de São Paulo. É exatamente nesse ponto, segundo os tucanos mais experientes, que há uma complicação para a campanha do partido neste ano em relação à 2002. Se não se vê obrigado a defender um governo mal avaliado como Serra teve de fazer em 2002, Aécio terá de se contrapor a uma candidata, Marina Silva, que  tem baixa rejeição no eleitorado e potencial de apoiá-lo num eventual segundo turno.

Tudo, segundo os tucanos, vai depender das campanhas de Aécio e de Marina neste início de horário eleitoral gratuito de rádio e televisão, previsto para começar nesta terça-feira (19). Se fizer a mesma campanha quase monotemática que fez em 2010, Marina deverá perder votos ao longo da caminhada rumo às urnas, afirmam os tucanos. Por outro lado, se mostrar consistência, pode subir. Conforme pesquisas em poder dos partidos, Aécio estava crescendo entre instruídos e mais ricos dos grandes centros, fatia do eleitorado que pode migrar, em parte, para Marina. Neste momento, poucos dentro do PSDB estimam que Aécio receba os 40 milhões de votos que Geraldo Alckmin teve no primeiro turno em 2006 (contra Lula) nem os 33 milhões de Serra no primeiro turno em 2010 (contra Dilma).

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