segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Registros de queixas na polícia contra aplicativo Secret se intensificam


Fotos ou mensagens anônimas circulam livremente na nova ferramenta e podem ser destrutivas.

Um aplicativo promete o anonimato para que seus usuários compartilhem segredos. Mas o que era para ser um mural de desabafos está transformando a internet em uma rede de intrigas. E em todo o Brasil surgem vítimas desse novo cyberbullying.
São Paulo, terça-feira, 1h30. O DJ Lucas Ribeiro olhou para o celular e levou um susto. Uma mensagem avisava que uma foto dele íntima estava circulando na internet.
“Isso gerou comentários de todos os tipos. Gente que falou coisas absurdas a respeito de mim, gente que me conhecia, mas que até então não dá para saber quem é”, diz.
A foto estava em um aplicativo que ele não tinha e nem conhecia, o ‘Secret’. Fotos ou mensagens anônimas circulam livremente nessa nova ferramenta e podem ser destrutivas. 
“Na última semana, nós recebemos cerca de 20 ocorrências. Vinte pessoas que nos procuraram comentando sobre problemas que tiveram no ‘Secret’”, conta a advogada de Lucas, Gisele Arantes.
Nos últimos dias, esse aplicativo foi o principal alvo de reclamações na Delegacia de Crimes de Informática (DRCI) do Rio de Janeiro. As primas Wany e Thainá também foram vítimas de um boato.
“Falei com ela: ‘Vamos na delegacia, vamos tomar essa iniciativa, porque isso já tá ficando demais aqui’, conta a estudante Wany Ulrich Santos.
“Para quem tá achando que não vai ter jeito, vai ter jeito, sim. Vão descobrir quem é, e você vai, se quiser, poder processar, sim”, acredita a estudante Thainá Ulrich Martins.
“Os registros aqui na DRCI se intensificaram na última semana. E inclusive pessoas que os pais chegaram aqui desesperados porque os filhos estavam querendo cometer até suicídio devido à pressão por causa dos fatos inverídicos que foram lançados por intermédio do aplicativo ‘Secret’”, conta o delegado Alessandro Pinho Alonso.
Em uma rede social, tudo é compartilhado com alguém, que tem um rosto, um nome, e outras informações bem detalhadas no perfil. É ambiente virtual com um pé na realidade. No ‘Secret’, tudo isso desaparece. É como se fosse um grande mural, onde pessoas sem nome e sem rosto vão deixando mensagens que são lidas por quem passa por ali. A sensação de liberdade pode criar uma sensação de impunidade. Mas especialistas alertam: tudo o que é feito na internet deixa rastros. 
“Não existe o anonimato na internet. Tanto é que quando você tem um aplicativo, no mínimo, você está deixando algum dado cadastral”, explica o advogado Fernando Barrueco.
Os responsáveis pelo aplicativo só aceitaram dar entrevista por e-mail. A resposta do aplicativo chegou e eles disseram que tem uma grande equipe responsável por analisar e remover as mensagens indevidas rapidamente. Para as vítimas, isso é pouco.
“Por isso que a gente fez esses dois pedidos: remove o aplicativo da loja virtual e também bloqueia o acesso dos brasileiros a esse serviço lá no exterior”, conta a advogada Gisele Arantes.
“A internet tem que ser livre. Mas você não pode se esconder atrás desse anonimato para praticar um crime”, argumenta Barrueco.
O ‘Secret’ foi criado em janeiro na Califórnia, a terra dos gigantes da internet. E em maio chegou às lojas virtuais no Brasil. O ‘Secret’ começou com mensagens de desabafo e brincadeiras quase inocentes como a foto do sorvete e a legenda: ‘não contem para o meu treinador’.
Os fundadores do site dizem que ele surgiu com boas intenções, como um lugar seguro para que, em segredo, amigos pudessem dividir emoções e apoiar uns aos outros. O resultado foi bem diferente.
"Esse aplicativo na verdade se tornou uma verdadeira rede de intrigas. Porque vão desde comentários banais, até crimes contra a honra e crimes mais graves como cyberbullying e até pedofilia.”, explica o delegado.

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