Surge um confronto, a verdade que estaria por trás do prédio que foi tomado para fazer culto ao Sarney?
Por que será que a TV Mirante não mostrou esse outro lado? Sarney deve ser cultuado, mesmo depois de se render aos militares, que prenderam, massacraram e mataram nossa gente?
Eis que surge uma outra história, sobre um museu que foi apropriado pelo então presidente da República, José Sarney, numa manobra que tornou um antigo prédio de um convento onde o Padre Antônio Vieira recitou suas preces, que foi restaurado por verbas federais, pela UNESCO, tombado como patrimônio público, mas que sofreu uma posse ilegal. Seu custeio foi por anos bancado pelo sofrido povo, legalizado por uma lei que, se levada a sério,  é vista como verdadeira aberração e afronta aos princípios do direito.
Só poderiam partir de gente sem a menor noção do que é justiça, leis, e poder público, uma coisa dessa.
Abaixo, deixo com vocês o editorial retirado das páginas do Jornal Vias de Fato, assinado pelos jornalistas Emílio Azevedo e César Teixeira, endossado pelo historiador maranhense, Wagner Cabral.

Editorial – O governo Flávio Dino e a Fundação José Sarney

Ladro
Para começo de conversa, vamos deixar uma coisa bem clara: não existe, de fato, uma Fundação da Memória Republicana Brasileira dentro do Convento das Mercês. Esta fundação pode até existir formalmente, mas, na prática, trata-se de uma entidade que faz parte de uma grande farsa montada por José Sarney, ao longo de 25 anos. O que houve no prédio do antigo Convento ao longo desse tempo é uma ocupação ilegal de um espaço público, a grilagem de um prédio histórico e tombado, que passou a ser utilizado para obtenção de lucro financeiro e do culto a personalidade de Sarney, sua família e sua oligarquia. Há cerca de três anos, a posse do valioso imóvel voltou a ser do Estado.
Porem, a fundação de araque (recriada pelo governo Roseana) segue ligando Sarney ao Convento. É bem aí o X da questão.
No dia 1º de fevereiro de 1990, José Sarney registra no cartório de sua irmã, Lucy Costa Soares, sem qualquer alarde, uma entidade com o nome de Fundação da Memória Republicana. É através desta entidade privada que ele recebe, naquele mesmo ano, a doação ilegal do Convento das Mercês, numa operação obscura, que contou com a participação de dois governadores: Epitácio Cafeteira e, logo em seguida, João Alberto de Sousa. Tudo feito às escondidas, sem divulgação na mídia e em regime de urgência na Assembleia Legislativa. Cafeteira, em fim de mandato, autoriza a doação do Convento à Fundação e João Alberto faz a entrega, através de escritura pública. Entendam que Sarney e Fundação tornaram-se, ao longo deste golpe, uma coisa só. A escritura que deu a posse, o domínio e a propriedade do Convento para Sarney (através de sua Fundação) é de 13 de junho de 1990.
Um ano depois de criada a Fundação da Memória Republicana, já em 1991, quando o museu de Sarney veio a público e teve início o culto a sua personalidade, os órgãos de comunicação do Sistema Mirante chamavam a entidade de Fundação José Sarney. Em 2000 (10 anos depois de criada), no dia 15 de fevereiro, a fundação mudou oficialmente de nome, deixando de se chamar de Fundação da Memória Republicana e passando a se chamar Fundação José Sarney.
Em 2005, durante o governo de José Reinaldo Tavares, foi aprovado na Assembleia Legislativa um projeto de lei, de autoria do então deputado estadual Aderson Lago, que anulava a doação e devolvia o Convento ao patrimônio público. Sarney recorre ao Supremo Tribunal Federal para anular esta lei, numa ação judicial assinada pelo então presidente do Senado, Renan Calheiros. Neste recurso ao Supremo, o nome de Sarney não aparece e é citada, apenas, a Fundação da Memória Republicana. Foi utilizado um nome extinto, para dizer que se tratava de algo de interesse maior. Uma mentira!
Essa lei aprovada na Assembleia Legislativa foi, de fato, anulada pelo Supremo, a pedido do Senado Federal. Porém, em agosto de 2004, antes da iniciativa de Aderson Lago, o Ministério Público Federal já havia entrado com uma ação pedindo à Justiça que declarasse a “ilegalidade e nulidade” da doação do Convento das Mercês à Fundação de Sarney. Por esta ação, o Ministério Público pedia que o imóvel retornasse ao poder do Estado. O fato é que a doação foi ilegal. A lei brasileira impede que um prédio público tombado seja doado a uma entidade privada. O Convento é um prédio público tombado e a fundação de Sarney era uma entidade privada. Resumindo: mais cedo ou mais tarde a Justiça teria que anular a doação.
Mas, antes que a Justiça lhe tomasse o Convento, Sarney extinguiu sua fundação privada (que levava o seu nome) e o Convento foi teoricamente devolvido ao patrimônio do Estado. Ele fez isso enquanto sua filha Roseana ainda estava no governo do Maranhão, o que permitiu que ela criasse uma nova fundação “pública”, para administrar o convento. O nome da “nova” entidade foi Fundação da Memória Republicana Brasileira, exatamente o mesmo nome que Sarney utilizou em 1990, para tomar posse ilegalmente do imóvel, acrescentando, apenas, a palavra “brasileira”. Esta fundação “pública” tem os mesmos objetivos da antiga (a privada), além de uma série de ilegalidades, levantadas pela Ordem dos Advogados do Brasil, entre elas a participação hereditária de membros da família Sarney. Outra farsa.
Hoje, o governo Flávio Dino tomou iniciativas em relação ao Convento que, a princípio, desagradaram José Sarney. O governo tem dito que vai acabar com o culto à personalidade dentro do imóvel e que o prédio vai servir ao interesse público. Fala-se também num espaço, dentro do Convento, para homenagear as vítimas da ditadura. Tudo isso é positivo. Resta saber se é suficiente. O que não fará sentido é a legitimação, por parte do atual governo, da Fundação da Memória Republicana, criada por Sarney há 25 anos e “renascida”, há três anos, pelas mãos do governo de Roseana.
A Fundação José Sarney sempre foi uma só, independente de ser pública ou privada, de ter o nome dele ou de estar disfarçada com o nome de “republicana”.
É preciso dar um passo à frente nesta história. A fundação “reciclada” no governo de Roseana precisa ser extinta. Não se trata de nenhum revanchismo ou coisa que o valha. Temos aí um conflito de interesses, natural neste tipo de situação. De um lado temos Sarney e sua síndrome biográfica, forçando a barra, blefando e fazendo chantagens para manter-se, de alguma forma, ligado ao patrimônio histórico, o mesmo que remete à memória do padre Antônio Vieira. Do outro lado há o bom senso e toda opinião pública construída ao longo do tempo (animada com o discurso do novo governo), querendo vê-lo longe de lá. Recentemente, até o New York Times denunciou a relação espúria do oligarca com o imóvel.
Sendo assim, tirar o “mafarrico” do Convento terá um grande simbolismo. Não tem sentido prestar uma homenagem às vitimas da ditadura (os torturados), junto com uma fundação criada por inspiração do ex-presidente da ARENA, o partido dos torturadores. Não é possível conciliar a historia de Maria Aragão, com a memória “republicana” da oligarquia. Além disso, o povo maranhense não é obrigado a sustentar e hospedar, com o suado dinheiro dos seus impostos, a vaidade de ninguém (mesmo expressa através de livros, presentes e documentos oficiais). Hospedagem pressupõe concordância ou convite, e este, decididamente, não foi o caso.
Então, o atual governo deve devolver para José Sarney o que lhe pertence. Isto é o correto. Isto é o que se espera. Os livros de Sarney, os documentos oficiais e os presentes que ele recebeu na presidência devem ser encaminhados a outro espaço (público ou privado), sem qualquer prejuízo social ou cultural. No Convento é que não pode ficar. Ali é um símbolo a ser recuperado pela sociedade maranhense. Não tem meio termo.
Não faz sentido ficar algum resíduo de Sarney no Convento. Em nome de quê? Da memória de quem? Da vontade de quem? Da velha oligarquia? De seus simpatizantes? Esperamos que o atual governo, que anunciou a “proclamação da república no Maranhão”, não legitime esta farsa de “memória republicana”, recriada recentemente pelo último governo de Roseana Sarney. Governos devem agir em favor da res publica (da coisa pública) e disso não faz parte uma fundação de araque, com uma vida marcada por trambiques. Tudo que tem hoje no Convento é a memória da oligarquia de José Sarney. E é isso quem tem que ser tirado de lá. Por completo. Sem deixar raiz.