domingo, 19 de julho de 2015

Marin evita delação por estratégia, mas rachou com Del Nero antes de prisão


jose maria marin marco polo del nero brasil coletivaA relação entre Marco Polo del Nero e José Maria Marin já vinha se desgastando desde a sucessão presidencial na CBF. Del Nero, que durante a gestão de Marin teve todos os privilégios e apoio do presidente, não correspondeu da mesma forma quando eleito. O blog ouviu aliados do ex-presidente da entidade, que hoje está preso em Zurique, na Suíça, respondendo a processo de extradição para os Estados Unidos, e os relatos dão conta de que, ainda presidente, Marin era vigiado de perto por Del Nero, assinava papeis sem ler e não tomava qualquer decisão sem a concordância do então aliado mais próximo. Marin só estaria calado até o momento por conta de uma estratégia de sua defesa pois, apesar de gravações o implicarem em possível recebimento de propina, as autoridades americanas ainda não conseguiram comprovar a existência e a localização do dinheiro que teria sido recebido pelo dirigente.
 
Esta é a principal esperança de libertação do ex-presidente da CBF, que neste momento contesta a extradição e aguarda uma decisão de primeira instância, para a qual ainda caberá recurso. De acordo com o porta-voz da Justiça Federal Suíça, Folco Galli, todo o processo, incluindo os recursos, deve durar em torno de seis meses. Somente um dos sete presos em Zurique concordou com a extradição, Jeffrey Webb, que já está nos EUA.
 
O atual presidente da CBF, Marco Polo del Nero, anunciou que não estará em mais uma reunião do Comitê Executivo da Fifa. Justificou que não pode se ausentar por conta da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) no Senado, embora nenhum compromisso que exija sua presença no Congresso esteja previsto para os próximos dias. A alegação foi parecida com a que deu quando deixou Zurique às pressas, na véspera da eleição da Fifa e a dois dias de uma reunião do Comitê Executivo decisiva para a Conmebol. O motivo real, contudo, é o receio de extradição para os EUA, o que não pode acontecer enquanto estiver no Brasil. Del Nero seria um dos co-conspiradores não identificados nos relatórios das investigações americanas.
 
A relação entre Del Nero e Marin começou a se desgastar pouco depois da sucessão na CBF. Marin teria perdido todos os privilégios na entidade - como passagens, cartão corporativo e até sala - logo depois de entregar para o atual presidente. Era vigiado de perto por Del Nero, que não o deixava conversar sozinho com possíveis opositores. Alguns presidentes de federações estaduais chegaram a se reunir com Marin antes da eleição e pediram que concorresse para não deixar Del Nero tomar o poder, avisando o que provavelmente aconteceria. Até mesmo as ligações para Marin eram filtradas por um assessor, trabalho facilitado pelo fato de o senhor, de 83 anos, ter dificuldade para mexer nos aparelhos. Parecia confortável ter alguém para atender e repassar.
 
Marin preferiu se manter fiel ao que havia prometido, mesmo sendo alertado de que estava fazendo papel de "rainha da Inglaterra", pois, para esses aliados, quem de fato tomava as decisões era Del Nero. Segundo os relatos, por diversas vezes Marin assinava papeis sem ler e chegou a ouvir a frase: "Qualquer dia você vai assinar a sua renúncia e só saberá quando sair no jornal".
 
Foi justamente essa relação de cumplicidade que deixou a família de Marin tão revoltada com suas atitudes no dia da prisão, e no período logo em seguida. No dia em que Marin foi levado pela Polícia Federal suíça, no luxuoso Baur au Lac, em Zurique, Del Nero foi avisado por Dona Neusa, que pediu sua ajuda por telefone. Em seguida, o atual presidente da CBF deixou rapidamente o local e horas depois saiu do país, mesmo na véspera do Congresso da Fifa. Dona Neusa ficou em situação delicada, pois todos os cartões que Marin estava utilizando na Suíça foram confiscados. Apesar de ser de família rica, a esposa de Marin ficou sem dinheiro sequer para voltar ao Brasil, o que só conseguiu com a ajuda da Conmebol, que arcou com os custos por ordem do presidente Juan Angel Napout.
 
Napout foi quem ordenou a contratação de um advogado especialista na Suíça, Georg Friedli, que tem escritório em Berna e está à frente do caso de extradição. Decepcionada com Del Nero, Dona Neusa recusou ajuda da CBF e ficou com o partido político de Marin, o PTB, que contratou um advogado para também atuar no caso. Em um primeiro momento, envergonhado da sua condição, Marin pediu que a família não o visitasse na prisão. Mas Dona Neusa esteve na Suíça em meados de junho - não há confirmação, no entanto, se de fato houve o encontro que teria de acontecer através de um vidro, sem contato pessoal. Ela pressiona para que Marin conte tudo o que sabe às autoridades e considera que o marido foi enrolado e usado como bode expiatório.
 
Marin, no entanto, reluta em tomar esse tipo de atitude e aguarda a evolução do seu caso. A defesa se apoia no fato de que, apesar das gravações contra o dirigente em posse das autoridades americanas, o dinheiro da suposta propina até o momento não foi encontrado e esse pode ser o caminho para a sua liberdade. Mas, antes de sua viagem a Zurique, o então vice-presidente da CBF (no momento afastado do cargo), chegou a ligar para um de seus aliados e comentou sobre a decepção com Del Nero, avisando que logo que voltasse contaria quem de fato era o dirigente que ele levou ao poder na entidade. Mas não voltou.

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